Leia o excelente artigo escrito pelo conselheiro Nilton Filho, o Niltinho, publicado na revista eletrônica “Barradão On Line”, a respeito da Lei Pelé.

“Memórias de minhas putas tristes*

Pouco se falou sobre a saída de Joãozinho. Surpresa para todos,  o fim do ciclo deste atleta no Vitória deve servir de lição. Não somente para a diretoria de futebol, mas também, e principalmente, para a torcida.

E é bom que com ela se entenda esse novo modelo na relação atleta-clube, e por conseqüência torcida, instalado pós-Lei Pelé.

Está hoje em voga afirmar que as relações entre clube-jogador seguem um modelo “profissional”, sacramentado pela referida lei, perdoem-me, porém discordo.

Entendo como relação profissional um processo positivo de dois sentidos, na qual a contrapartida da remuneração reflete um comportamento proativo, em um ambiente justo, saudável e de crescimento mútuo. Será que isto acontece no futebol?

Via de regra não acontece. Se isto efetivamente acontecesse atletas profissionais não precisariam de concentração, seguiriam criteriosamente as orientações médicas e nutricionais, atenderiam satisfatoriamente a mídia e os fãs, dariam entrevistas sem erros bisonhos de português, preocupariam-se com sua imagem e exposição e, definitivamente, não viveriam em farras.

A lei Pelé legitimou sim uma relação mercantilista e globalizada.

Basta pegar o caso Joãozinho, há pouco atleta de terceira divisão, para entender que o risco é todo do clube. O processo é, quase sempre, perde-ganha, perde o clube, ganha o atleta e empresário. O que vale hoje senhores é exclusivamente a prata, o dinheiro no bolso. Veio de qualquer canto do mundo, México ou Cazaquistão, pagou a multa rescisória pronto, pode ir beijar outro escudo.

Se o futebol fosse um ambiente corporativo saudável, atletas não motivariam-se apenas por dinheiro e dariam a contra-partida que efetivamente se espera: profissionalismo.

Se o aprendizado para o clube é que não cabe mais amadorismo e paixão, para nós torcedores fica a lição de que nossos ídolos são cada vez mais fulgazes e fúteis. Nada de romantismo nem paixão duradoura. Ídolos de temporada. Pode até ser saudosismo, mas fico triste com isto.

Temos de aprender as novas regras. Em compensação naturalmente o nível de exigência aumenta, ou seja: podemos e devemos cobrar mais.

Em outras pistas Joãozinho que se vá. Tratemos de encontrar outro este ano para idolatrar”.

(*) Título de romance de Gabriel Garcia Márquez – 2004, romance de tendência autobiográfica, narra a procura de velho por uma prostituta virgem para sua última noite.

Nilton Filho
Conselheiro desde 1987 e administrador.
E-mail: nsampaio@ecvitoria.com.br