Por Edson Almeida
 Um bicampeonato conquistado pelo Vitória dois minutos após o seu jogo acabar, porque dependia de um outro disputado a 40 quilômetros do Barradão, só definido no quarto critério de desempate com o seu maior rival, o Bahia. Mesmo número de pontos (10), de vitórias (3) e de saldo de gols (3). Mas na maior quantidade de gols no quadrangular, o rubro-negro fez 16 contra 11.
 Emocionante, inusitada, inesquecível. Nos meus quarenta e tantos anos de cronista não havia registrado uma decisão como esta, em que quatro times chegam com concretas chances de chegar ao pódio. Ao Itabuna, de maior dificuldade, era só ganhar do Vitória e o jogo entre Bahia e Conquista terminar empatado. O Conquista, de maior praticidade, bastava ganhar sua partida de 1×0 – e os dois grandes, teriam mesmo que passar pelas múltiplas emoções que passaram para um deles chegar ao título.
 Não tenho nenhum constrangimento em lembrar que, ao longo de todo o campeonato, a partir da quinta rodada, comecei a opinar que o Bahia tinha todos os ingredientes para chegar ao título. E quando os dois turnos da fase classificatória acabaram, afirmei como quem não tem medo de vacilar, que o tricolor seria o campeão. Pela maior quantidade de pontos até ali conquistados, pela forma compacta como seu time jogava, pela ótima produtividade da maioria de seus jogadores, como Alyson, Rogério, Fausto, Elias, em toda competição, e mais tarde os meninos Marcone e Ananias, além do extraordinário desempenho do goleiro Darci em clássicos e jogos decisivos. Mas em dois jogos, contra o Vitória, no Jóia, e o Itabuna, no Luiz Viana, deu uma pane mental no competente Paulo Comelli e as coisas foram realmente decisivas. Perdeu ambos os jogos por 3×0. Em um, deixou de levar zagueiro na reserva, quando tanto precisou após a expulsão de Marcone e, no outro, armou o esquema mais esquisito dos últimos tempos. Colocou em campo uma equipe defensiva, diferente da que todos pensavam, com jogadores de rendimento duvidoso. 
 O campeonato, de desfecho sensacional, que apresentou um campeão inesperado, pois o Vitória realmente entrou no quadrangular como terceira opção e se valendo pela estrutura e tradição, deixou grandes lições. A primeira delas é que os afoitos, que insinuavam que o Bahia iria abrir para o Conquista, se o Vitória chegasse a colocar uma boa vantagem em seu jogo, quebraram a cara: o tricolor fez prevalecer a sua história de vencedor, lutando com bravura do princípio ao fim, perseguindo um triunfo que lhe desse o direito de levar a taça para a sua rica e honrada galeria de troféus. Outra: que tanto tricolores quanto rubro-negros ainda precisam melhorar consideravelmente os seus times para enfrentar os rigores das Séries dos Brasileiro que vão disputar. Uma terceira lição: a que times emergentes, como Itabuna e Conquista, ao chegarem com tanta qualidade em decisões, precisam se aplicar na preparação psicológica de seus jogadores, porque não foi juventude nem coação de árbitros coisa nenhuma, mas uma timidez e um acanhamento incompreensíveis para os tempos modernos, de tanta informação no dia-a-dia de nossas vidas em todos os campos.
 Não levo muito em consideração o rosário de queixa de tricolores contra as arbitragens. Foram erros de parte a parte, desses que não tiraram o brilho da competição. Aliás, a Federação – e em especial o seu presidente Ednaldo Rodrigues – merece elogios pelo excelente e motivado campeonato, mesmo sem a Fonte Nova, fechada desde novembro do ano passado. Rodrigues manteve arbitragem local para todos os jogos, não protegeu nenhum filiado, teve um comportamento íntegro, irrepreensível e realizador.
 No final das contas, todos merecem respeito e aplausos: o Vitória, pela manutenção da hegemonia; o Bahia por ter enfrentado as dificuldades de não ter uma casa própria para receber os seus adversários e fazer o seu melhor campeonato dos sete anos que não comemora títulos; o Conquista por ser um jovem time atrevido e de ótimas revelações e o Itabuna pela recuperação nas rodadas anteriores, quando todos já o consideravam eliminado da decisão. 
 Essas gozações de que o Bahia agora é quem morre na praia e que sete anos é um número cabalístico e fadado a se multiplicar, é negócio de torcedores que brincam com coisa séria.